De onde vem o Burlesco?

Giorgia Conceição - Miss G
5 min readSep 7, 2015
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A história do que chamamos hoje de burlesco é uma história de mulheres, freaks e marginais, de artistas pouquíssimo valorizados, que formam um lado obscuro e pouco conhecido do teatro e das artes cênicas e que merece ser visibilizada, pensada e pesquisada. A performance burlesca ou, como ela é mais comumente chamada por artistas e público, o burlesco, ainda é pouco conhecida no Brasil. Isso não quer dizer que seja totalmente estranha a nós. A história do burlesco remete aos teatros populares realizados nas feiras europeias no século XVI, ou mesmo antes, ao desempenho de grupos de artistas quase clandestinos. Deficientes físicos, homossexuais, e quaisquer corpos não aceitos dentro das esferas das artes oficiais; de mulheres, dançarinas exóticas, da grécia antiga; de artistas que sempre passaram longe dos teatros financiados por recursos oficiais, dos festivais ou dos concursos. Há que se pensar no que esses corpos estão dizendo - e a quem estão dizendo - com suas performances.
A performance burlesca praticada hoje no Brasil (como também em alguns países da Europa, na Austrália, Canadá e Estados Unidos) é, geralmente, a ação de uma performer realizada dentro do tempo de uma canção pop, e não baseada num texto (como no teatro tradicional), mas sim em elementos visuais e num estreito jogo com a audiência. A estrutura dessa performance envolve, na maioria dos casos, um striptease. Essa estrutura, bem como o uso do striptease, tem origens em meados do século XIX na Inglaterra, chegando nos Estados Unidos para, depois de um século, ser influenciado na década de 1990 pelas cenas queer (drag queens e performances feministas) e da performance art, dando origem a um movimento artístico na cidade de Nova York nomeado New Burlesque.
O burlesco é um subgênero do cômico. Alain Rey (1993) identifica, em seu verbete “Burlesco”, como “gênero de espetáculo [que] foi criado no século XIX nos Estados Unidos. Segundo Paul Morand, é de inspiração alemã.” (REY, 1993, p. 309). Debrucemo-nos sobre o significado da palavra burlesco. Para Massaud Moisés, “o vocábulo 'burlesco' designa obras literárias ou teatrais que, visando o cômico por meio do ridículo ou da zombaria, recorrem à imitação satírica ou parodística de obras sérias.” (MOISÉS, 2004, p. 58). Essas obras produziriam incongruência de assunto ou estilo, provocando o riso. A palavra burlesco deriva do latim burula, que significa gracejo, burla, piada. A literatura foi a primeira área artística a adotar o termo, a partir do século XVII. Ainda segundo Moisés, Scarron foi “o primeiro a empregar o termo, em 1643 (Recueil de quelques vers burlesques), e adotá-lo como rótulo de Virgile travesti (1648-1653), paródia de Eneida.” (MOISÉS, 2004, p. 58).
Esta lacuna entre o surgimento do burlesco na literatura e sua passagem para o teatro, e mais recentemente, para a performance, foi trabalhada por mim na dissertação de mestrado. Porém, o que nos interessaria por ora nesta discussão é perguntar: se o burlesco é caracterizado pelo tom jocoso e por distorcer a nobreza, importância ou tamanho de algum tema ou assunto, qual seria a relação entre este e o corpo feminino? Vendo de outro modo o que se geraria com o striptease nessas performances? Como olhar o striptease sob um viés político, feminista? Cabe também perguntar como o striptease e a sensualidade do burlesco são trabalhados dentro de um contexto cultural brasileiro. Como seria possível articular burlesco e antropofagia? A articulação dessas perguntas pode ser realizada, a meu ver, quando pensamos que para haver burlesco, é necessário que a burla esteja presente. E o que se burla nessas performances? Acredito que a burla seja a do próprio corpo da artista e suas significações (históricas, psíquicas, sociais). Há um corpo a ser burlado. Se é no corpo que está inscrito as significações do mundo e do eu, a burla, aqui, seria um percurso deste corpo na tentativa de operar a partir de suas dores, de suas marcas, de seus entraves. Mas também de suas alegrias, descobertas e invenções. Burlar, em certa medida, é rir, e é preciso malícia para rir de si sem piedade. Estranhar-se.

Quem sou eu

MISS G. a.k.a. Giorgia Conceição
Sou artista burlesca, performer, pesquisadora, diretora teatral. Iniciei minhas pesquisas com burlesco em 2007, mas minha estreia nesse campo viria a ser em 2009, com o espetáculo multimídia Burlescas, da Companhia Silenciosa, do qual era uma das diretoras, roteiristas e performers (o espetáculo participou do até então único evento de Burlesco que acontecera no Brasil, o Variante Burlesca, promovido pelo SESC Ribeirão Preto, em fevereiro de 2011). Sou uma das entusiastas do gênero no país, focando meus esforços, pesquisas e realizações para esta área. Procuro um estilo provocativo, caracterizado pela abordagem e revisão de temas da cultura brasileira, como a antropofagia, o multiculturalismo, as religiões afrobrasileiras, a música funk, o technobrega. A ironia, o humor e a burla dos estereótipos do corpo feminino e brasileiro, quase sempre baseados em padrões do tipo exportação. Sou Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, onde desenvolvi como bolsista Capes a pesquisa intitulada A Burla do Corpo: estratégias e políticas de criação. Em 2014, fui aprovada pelo novo Programa Rumos Itaú Cultural, com o projeto Burla: divergências, contrastes e outros carnavais, para a realização de ações múltiplas em torno do tema (burla, burla do corpo, burlesco e cultura brasileira). Em outras edições do Programa Rumos, fui contemplada nas edições Rumos Dança – carteira de Videodança (2009/2011) e Rumos Teatro (2011/2013), com os trabalhos Simpatia Full Time e Salsichão no Boquerão/Tainha na Prainha, respectivamente. É uma das organizadoras e curadoras do Yes, nós temos Burlesco!, festival pioneiro do gênero no Brasil, que teve sua primeira edição em abril de 2015, no Rio de Janeiro. Dirigi, recentemente, o espetáculo Carne de Segunda — Burlesque Meat Show, com criação coletiva de Julie Atlas Muz, Dirty Martini (USA) e Miss G. No ano que vem, 2016, lançarei um filme que registra esse processo de criação.

Te convido a visitar o meu site e saber mais sobre o mundo da burla!

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Giorgia Conceição - Miss G

Terapeuta corporal, artista burlesca e autora. Trata de assuntos como beleza, autoestima e sexo com leveza e humor.